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HEREDITÁRIO

Como meus pais, sou um homem triste. Se sou um homem, não sei, tento ao menos transparecer um... não que tenha problemas com minha sexualidade, não. É que já estou beirando aos trinta anos e ainda tenho uma dependência umbilical – apesar de ter apenas o pai vivo, e isso não põe à prova as virtudes que um homem tem de ter para se dizer um.

A melancolia é hereditária em nossa família, tanto na materna quanto paterna, mas o suicídio apenas na materna. Os mais velhos dizem que, ao nascermos, mal choramos ante as palmadas do médico, que têm de vir no plural mesmo, senão não surtem o efeito esperado. Não reclamamos o colo das mães, não rejeitamos as enfermeiras, de toda forma está bom, ou quase toda. Demoramos a abrir os olhos, e quando o abrimos já os temos baixos, longes, como que olhando com desdém o mundo já na primeira espiada. E carregamos esse desalento pelo resto da infância, adolescência até a maturidade, como que subindo a montanha rolando uma pedra e observando o horizonte que se desenha e é pintado.

Meu pai era médico e morávamos na mansão herdada do meu bisavô. Como médico me presta consulta e a todos os seus parentes, que se dirigem a ele apenas por convenção familiar, mal nos olha, nos pergunta. Não cheguei a o conhecer, nos sentávamos juntos á mesa somente no almoço dominical, após isso ele se recolhia à biblioteca e por lá ficava. Isso antes da mamãe se ir, depois nem isso fazia, ficava recluso, em um auto-exílio. Gostava de apreciar uísque mas nunca o vi bêbado.

Tenho um irmão, mas dele falarei mais tarde. Quanto a mim, tento combater meu egoísmo com esmolas. As capitalizadas ajudam momentaneamente, prefiro essas, pois o pedinte, em meio a tantos que o ajudam, nos esquece facilmente a ponto de nos parar novamente na volta. Esse altruísmo na verdade é a mim que faço, pois sinto menos culpa e mais atuante, um pouco mais de vida, só um pouco. Costumo praticar também doando meu tempo, meus ouvidos. Sempre que vou conversar com pessoas acabo mais as ouvindo queixarem-se de tudo, geralmente de reações que suas ações irracionais ou mal-arquitetadas a impelem – mesmo quando as pago para estarem junto a mim. Dôo meu tempo, mas vou para longe, fumo um charuto na fazenda vendo o caseiro matuto matar frango-caipira, sirvo-me de chave para que as pessoas se abram e deixem seus monstros saírem, enquanto passam os vinte minutos que não foram aproveitados e assim cumprir com o acordado e previamente pago. Ao entrar por essas portas me liberto também, vivo essas estórias ao meu modo, e percebo que essa minha privação do mundo é o próprio conceito de morte, é abiótica, é fome crônica.

Combater o egoísmo é mais fácil que combater o egocentrismo. Por saber do universo das possibilidades, acho mais interessante conhecer as escolhas e as possibilidades dos outro que fazer as minhas próprias e as arcar. Como um deus, não tenho vida, cuido e manipulo a dos outros como que num laboratório. As pessoas que não se preocupam com dinheiro, acabam se apegando a cada trivialidade. Eu sou um exemplo disso. Faço isso porque quero saber o que levou mamãe a sucumbir em si mesma, quais motivos levam pessoas a isso, que desespero. E é ai onde entra o meu irmão.

Hoje ele estuda em outra cidade, também trabalha, e me parece que está noivo. Saiu daqui para estudar engenharia, mas como pretexto. O ambiente fúnebre que nos cerca não o deixava à vontade, e quando mamãe se foi ele quis ir estudar em um internato na Escócia, voltou para o país e já se mudou para a capital, foi continuar os estudos lá. Ele é bem diferente de nós, é alegre, tem os olhos escuros como as jabuticabas que colhem na fazenda. É comunicativo, desde criança todos já notavam e, às suas formas, estranharam.

Acho que ele não é filho do meu pai. Até a pouco, não sabia por que minha mãe não fugiu com o pai dele e foi feliz, enfim. Seria um escândalo em nossa pacata cidade, onde o casamento dos meus pais unificou o aglomerado de clínicas da região, e o divórcio poderia por fim à sociedade, o que teoricamente a levou a fazer isso. Um ato muito heróico, a meu ver, uma mulher apaixonada tirar a própria vida, pois ir viver com seu amor acarretaria prejuízos financeiros e morais à sua família. As pessoas que vêem o amor como um fim, soçobram. Ele tem de ser um meio para um bem-maior. Não estou falando que não se deva amar outra pessoa, sim ama-se, mas depois paga-se a vai para casa. Fora isso, tem que se amar uma vida, um plano, um status; achar outra pessoa que amasse o mesmo mundo, então se apaixonar e furar um olho para não se enxergar tudo. Mamãe tinha os dois olhos vivos, e não suportou viver assim.

Ela bebeu inseticida na fazenda dos meus avós, seus pais. Mas seu caixão fora velado fechado, dizem que para proteger meu irmão, pois o veneno a estragara o rosto pálido. Era professora de língua inglesa e tocava piano contra sua vontade, sempre, na casa da vovó. “Amava todas as peças ao seu lado”, disse ela certa vez com excessiva espontaneidade, “mas esse jogo é uma tortura”. A esse tempo eu já era jovem o suficiente para saber que ela não contava com o meu pai ao seu lado, mas não compreendia que ela se apaixonara do rei-negro. Ela dava aula em uma cidade vizinha, para onde viajava uma vez por semana, e pernoitava.

Sua depressão derradeira começou quando essas aulas foram interrompidas. Ela chorou uma semana seguida e nunca se recuperou. Durou um mês, até que, após uma discussão com meu pai (tinha-os visto discutir apenas uma vez antes disso), fez uma pequena mala, nos deu um beijo e avisou que dormiria na casa da vovó. Na noite seguinte ligaram de lá, e meu pai saiu de casa às pressas. Pela manhã, mandaram-nos descer para o café da manhã de terno. À mesa meu pai nos deu a noticia, pediu para que, se fossemos chorar, para subirmos aos quartos e não manchar as roupas. Tínhamos 16 e 14 anos, eu sendo mais velho. Subi ao meu quarto mais logo desci, meu irmão mandou avisar que iria apenas à noite, já para o velório. Meu pai nunca se opôs ás nossas vontades, hipocondríaco, escutava com olhar longínquo.

Chegam a ser engraçadas as estórias familiares, as comédias familiares, ou anti-familiares, se o meu intuito aqui fosse formular um conceito tecnicamente. Que grande farsa não seria essas estórias, me utilizo do termo teatral exatamente para expor tudo o que há de encenação épica desde no correr de águas cotidiano até quando elas se dividem.

O enterro ocorreu. Meu irmão viajou para o seu internato. Voltou e está na capital.

Por esses tempos recebi uma carta anônima. Resumidamente contava que minha mãe não morrera àquela época, que meu irmão não fora a internato algum, e sim viver com ela em Londres. Que o pai dele viajara para lá e ela o seguiu. Argumentava que ela queria, de coração, levar nós dois, mas fora obrigada a escolher um, e deixar o outro para perpetuar a família. Agora estava em estado terminal de câncer, na capital, onde vive com meu irmão, pois pouco tempo depois o pai dele a deixou.

Rasguei a carta. Não fui querer saber. É mais confortável continuar debruçado na minha realidade, não sei como meu organismo suportaria mudar de mundo assim, bruscamente. Alem do mais, agora, não faz a mínima diferença ela ter morrido há quinze anos ou morrer daqui a um.

O erro do meu pai foi ter tido filhos. Homens como ele não podem ser responsáveis em preparar a terra a outra semente, pois ela não crescerá. No mundo animal, ele não sobreviveria. Não fosse meus avós arquitetarem o casamento, ou melhor, o negócio, ele estaria em seu consultório se masturbando até hoje ou já teria desenvolvido alguma patologia psicológica que o faria perder a viva precocemente. De homens com esse caráter, só poderia sair gente com o meu carater, é como o capital, ou um pouco menos determinista. E ainda põe-se a culpa na genética. Por isso também dou esmolas, sei o que é ter carências, sempre tive pão, mas nunca alguém que me alimentasse.
[...]

ABC DO SHAKESPEARE

Você já saiu do cinema com aquela sensação de haver sido traído, porque fizeram muita propaganda positiva de um filme que acabou se revelando demasiado extenso, repetitivo e com um finalzinho ruim? Não é bem isso que você está pensando, não estou me referindo às cansativas produções spielberguianas repletas de efeitos e despidas de roteiro e muito menos às películas indepedentes realizadas por pseudo-cineastas que insistem em repetir fórmulas falidas e que conseguem apenas arrancar sonolentos bocejos daqueles que se recusam a abandonar a sala de projeção antes que o filme escoe por completo pelo ralo do tédio.
Nós, brasileiros, gostamos de grandes histórias, com finais apoteóticos, sejam estes felizes ou não. Brasileiros se envolvem apaixonadamente por personagens que os emocionem, que os cativem, que os façam chorar, rir. E, quando estes personagens são pessoas reais, como nossos vizinhos, aí a identificação se torna mais sensível, como se pudéssemos abraçá-los e aconchegá-los nos sabores e dissabores de um espetáculo orquestrado pelos magos que revolvem o caldeirão onde ferve o nosso ópio diário: a televisão.
Às favas com a crise financeira! O que me importa se o FMI não morde os calcanhares de George Bush com a mesma gana que sempre nos sugara as artérias financeiras? Crise não dá Ibope, não dá audiência, não vale a capa de uma revista semanal sequer. Mas um seqüestro… Ah, um seqüestro! Isto sim é um grande furo, uma mancehete bombástica, uma história capaz de mesmerizar um país inteiro. Mas, o seqüestro de quem? Um político, o filho de um banqueiro, um artista? E qual a motivação? Dinheiro, vingança, fama? Que nada! O Brasil merece muito mais, afinal, somos um povo criativo, inventivo, que tem seu próprio jeitinho. Então nos deram Lindemberg Alves e sua bélica história de amor por Eloá Cristina, tendo como coadjuvante de peso a jovem Nayara Silva, personificando toda a lealdade e coragem das amizades verdadeiras. Pronto! O que nos faltava além de pipoca e refrigerantes para que toda a família se enraizasse diante da tevê, pedindo silêncio, elaborando teorias, vislumbrando um futuro incerto para as belas e jovens reféns?
Uma história suburbana de amor, não qualquer amor, mas aquele que realmente vale à pena, aquele que move montanhas e não tem vergonha dos exageros e do ridículo: o amor capaz de matar. Lindemberg, o jovem ex-namorado que, tomado por irrepresáveis arroubos românticos, toma de sua espada e transforma a pobre e indefesa Eloá em uma princesa encastelada, tendo ela como único conforto o amparo de sua fiel dama de companhia, Nayara. Quem resistiria a um roteiro destes? Nem Shakespeare faria melhor!
Todavia, a história que começou bem, acabou por tornar-se exaustiva, enfadonha quando estagnou-se em um determinado ponto onde a ação frenética pareceu congelar, o que deixou-nos inconformados. Afinal, pagamos nossos impostos não para vermos um impasse, mas para que as coisas se resolvam de forma rápida e intensa, como nas novelas que nos entorpecem do azedume de nossas vidas anoréxicas de fábulas fenomenais. Queremos sempre um, dentre dois finais: ou o tremendamente feliz ou o catastroficamente trágico. Mas, no caso dos amantes de Santo André, não tivemos uma coisa nem outra. Lindemberg acabou preso, Nayara ferida com um tiro na boca e Eloá em estado grave, após ser baleada na cabeça pelo homem que dizia amá-la, e talvez amasse, dentro dos suspeitos limites daquilo que sempre lhe disserem ser amor. Mas… Mas isto não é um fim de uma grande história! Quero meu passe de volta! Todos nós queríamos que Eloá o perdoasse e então se beijassem apaixonadamente, diante da bênção de Nayara, para que logo em seguida ele se entregasse, ainda abraçado à namorada que pediria assustada e dentre lágrimas Por favor, não o machuquem, foi tolice, eu o amo! Ou talvez fosse uma pirraça entre os três, que haviam ficado entediados e resolvido começar uma perigosa brincadeira que acabou por terminar mal. Talvez Nayara fosse a grande vilã, que havia semeado no coração de Lindemberg a semente do ciúmes, incorporando ela o malvado Iago que certa vez ludibirara o Mouro de Veneza. Ou então que Lindemberg, em um átimo de loucura, insandecido, dentre lágrimas de amor e desespero, matasse as duas meninas e logo em seguida desse um tiro contra a própria boca, os policiais ainda encontrariam Eloá e Lindemberg de mãos dadas, vítimas e carrascos do amor, em um Romeu e Julieta grotesco, sem a poesia de Shakespeare, sem o prometido para sempre. Um antagonista preso, uma coadjuvante desfigurada e uma protagonista em estado vegetativo não alavancam audiência, não arrancam aplausos, não sobrevivem ao próximo entretenimento televisivo.
Pobres de nós, brasileiros. Tanto esperamos por lágrimas e sangue e só nos restou o aleijo das vítimas antes encarceradas. Esta crise – que o Lula garante que ainda não nos atingiu e nem nos atingirá, e o segundo turno entre um Kassab longe da paixão de um Lindemberg e uma Marta sem os encantos de uma Eloá, não possui nada de empolgante, de sedutor. Mas, não nos deixemos abater. Talvez a greve da Polícia Civil ainda nos renda algumas atrocidades, para o nosso deleite e entrenetimento, para que possamos dormir satisfeitos e em paz.

P.S.: Eloá, em hebraico, significa Deus. E, como Deus, ela ainda não morreu, está em coma. Deus, esta entidade nem viva nem morta, vegetando no coração dos homens, sem neles operar nada além de desilusão.
[...]

CENTAURO

Vez ou outra, quando a saudade me assola como a lambida de um vira-lata sobre minha triste ferida, chego a sentir o gosto do sangue em minha boca, a sensação de que meu mal-feitor estará para sempre parasitado em meus intestinos, mastigando minha carne e cuspindo-a fora, talvez por sua incapacidade antropofágica de deglutir a si mesmo.


Em que época de nossas vidas somos jovens de fato? Não lembro. Sempre me achei velho demais, adoecido por preguiças e cansaços, consumido por minhas certezas de quem sabe tudo sobre si mesmo. Desde criança, cânceres geriátricos já se alimentavam de minha mocidade, vermes que me impediam de correr riscos, de descobrir coisas novas, de contar mentiras capazes de tornar minha vida menos enfadonha. A falta de prática em encontrar beleza no riso acabou por tornar-me precocemente sisudo e pouco dado às simpatias impostas pelo duvidoso estigma de que somos seres sociais. O mundo naturalmente parecia-me belo, ausente o incômodo que a presença de todos os outros seres viventes me proporcionava.


Enquanto as outras pessoas ambicionam guinadas surpreendentes em suas vidas e a conquista de amores impossíveis, sonham com a fortuna e a panacéia que lhes fornecerá uma velhice menos acometida por hipotecas e osteoporoses, eu me sugeria o ostracismo voluntário não como uma catapulta que me arremessaria a uma felicidade que me satisfizesse, mas uma forma de passar por este mundo em sepulcral silêncio, sem despertar a atenção de pessoas que provavelmente tentariam desviar-me de meu obsessivo propósito, o de não ser.


Ele chegou-me como um ladrão e, o pouco daquele eu era, desapareceu com o estrondo de um pestanejar de pálpebras cansadas. Não se enganem, o imprevisível nos entorpece e vicia muito mais que o seguro hábito de sermos calculáveis. Cada palavra saída de sua caleidoscópica boca me apontava novos corredores, repletos de portas e de possibilidades infinitas, convidando-me para o banho de chuva, o primeiro porre de tequila, o revelar de íntimos e tolos segredos, o deitar nu sobre o tapete da sala, o chute no gato, o filme pornográfico. As regras pareciam ter abandonado minha vida e eu já não fazia planos, ele não permitia que eu falasse sobre o dia seguinte, tapava-me a boca com o seu incessante orgasmo e então eu aceitava embevecido que realmente estava condenado a ser livre. Não qualquer liberdade, apenas aquela por ele constrangida, dentro de seus sedutores e despóticos padrões. Eu não poderia mais ter deveres com o mundo, apenas para com ele.


Ele nos bastava. As outras pessoas não passavam de meros espectadores de cartolina, estáticos, emoldurados diante de nosso costumeiro entorpecimento etílico, o cobre transformado em pó, a pedra em sonho, o concreto em fumo. Eu já não me enxergava, apenas ele, e só ele, existia de fato. Não era um homem que eu beijava, mas um espelho, um tosco espelho no qual meu rosto não mais se refletia, apenas o dele. Seu corpo era um templo de misantropia, nele eu encontrava a paz de andar dentre os outros e não ser percebido nem me incomodar com suas infernais presenças, pois eu não havia, eu não era, eu não permanecia. Custei tendenciosamente a me dar conta de que eu havia sido absorvido, de que aquela liberdade de inexistir não era minha, de que as paixões que eclodiam aquém destas carnes pálidas e fronteiriças e se voltavam para o homem que havia me presenteado com a minha tão ambicionada ânsia em desaparecer não passavam de um exercício narcisista, não era eu quem o amava cegamente, era ele. Éramos um só, em uma unidade exclusivista na qual apenas um permanecia intacto, enquanto o outro era engolido e extinto por insatisfeito útero paterno, transformara-me em algo que não podia ser nomeado, pois até mesmo o nada existe e é senhor de uma palavra só sua, capaz de defini-lo, de dar-lhe forma, de fazer com que ele seja. Conheci o que chamam amor através do esgotamento total de minha capacidade de sentir aquilo que há, apenas o que não existe, simulacro de algo jamais experimentado, eu sentia. Estranho sentimento. Um homem se amava diante da nulidade do ser rarefeito que não vivia, isto por viver a vida do outro, um ser que não era por ser a parte descartável de um devaneio, parte de um nós irreal.


Deuses, anjos, demônios, santos, gênios, até quando o homem insistirá em depositar a responsabilidade de sua própria vida nas mãos de entidades que não existem de fato, que não passam de delírios enxertados por nosso sentimento de separação das outras pessoas e por nossa necessidade de superar a dor da separação pela experiência da união com outro ser, mesmo que este não passe de uma farsa? Ao tornar-me o resultado do narcisismo de outro homem, como todas as criaturas mágicas – que possuem algo de realmente palpável em suas gêneses – eu também deixei de existir. Não que eu houvesse me tornado invisível, as pessoas invisíveis resguardam certa consciência de si mesmas sob a luz que lhes atravessa sem resistência. Não, eu não havia me tornado invisível, eu apenas não era. E justamente esta minha inesgotável capacidade de não ser dotava-me dos predicados necessários para que meu hospedeiro se abandonasse à confortável felicidade de existir porque alguém, por ele, havia deixado de ser.
A lei da gravidade, o fruto proibido, o primeiro murro acertou-me em cheio uma das maçãs do rosto. Ele não me disse o motivo pelo qual havia me surrado, apenas sentou-se à mesa da cozinha e chorou com a testa colada ao mármore frio. Era inútil. Estávamos expulsos do Paraíso e isto nos desgraçou pelo resto de nossas vidas, agora pariríamos nossos pensamentos e palavras com dor. A culpa. Não a dele, a minha. Algo de errado eu deveria ter feito, apenas um gesto falho meu poderia justificar o inchaço em meu rosto e o choro convulsivo de meu redentor, daquele que me presenteara com seu inocente sadismo. Teria eu, por uma fração de segundos, abandonado o limbo de inexistência no qual confortavelmente vivia, e esticado, feito um molusco, meu olhar atordoado para o lado de fora da caverna? Se assim o fiz, foi por um breve instante subliminar, porém suficiente para que sentíssemos vergonha um do outro. Dama de Mileto, quando feriste teu marido com o óleo de tua lâmpada, o que viste afinal, um deus ou um monstro terrível? A curiosidade foi minha grande falta e acabou levando-o irremediavelmente para longe de meu convívio. O golpe fora terrível, ele jamais suportaria que eu existisse, jamais. Creio que nem eu mesmo suporto tal fardo.


Vez ou outra, quando a saudade me assola como a lambida de um vira-lata sobre minha triste ferida, chego a sentir o gosto do sangue em minha boca, a sensação de que meu mal-feitor estará para sempre parasitado em meus intestinos, mastigando minha carne e cuspindo-a fora, talvez por sua incapacidade antropofágica de deglutir a si mesmo. O que farei de mim, agora que sei que existo e que estou sozinho? Odeio sentir minha respiração, sentir a aspereza das coisas com minhas extremidades táteis, olhar através da janela e constatar que toda beleza e miséria do mundo, apesar de não as enxergarmos, existem de fato. A ignorância é um bálsamo. A ignorância é um bálsamo.
[...]

Atual

Abre a porta e entra, batendo-a, de costas, com o pé. Está com mal humor.

Coloca as sacolas de compra encima da mesa e vai até a vitrola, que liga, deixando tocar o mesmo LP da manhã, em tom mais baixo. Tira a roupa na sala mesmo, espalhando pelo sofá, carpete, encima da vitrola.


ÍCAROS

Não temos mais sexo,
não,
temos a fuga para a liberdade
que aprisiona no mundo, vasto,
gasto de tanto mundar.
Que mal se despede,
nem dorme junto...
Não há a dualidade
A guerra dos sexos acabou
se unificou
onde a filosofia forma nitchianos
que só não se suicidam por falta de tempo
e pelo prejuízo financeiro e econômico que acarretaria aos seus...
...


Enquanto se despe pensa apenas no dia não muito rentável, visivelmente estressante e de discussões inoportunas. Os operadores homens se saíram melhores, mas já nem se gabam por isso, duelam entre si, apenas. Humilhante. As mineradoras e petrolíferas, que compunham a maior porcentagem do seu portfólio, caíram, assim como as construtoras. “Não há setor que se salve, grande Deus randômico?” Acompanhar, agonizantemente, a saúde ante a chaga, seus recursos – vitais – se esvaírem, em um trade-off entre realizar a venda, concretizar a perda e se entregar à novas ilusões de ganhos; ou ficar inerte, ante o câncer. Um constante trade-off.

Indo para o banheiro, alegrou-se a lembrar das ações da Natura, cuja compra lhe rendeu algo parecido com um elogio, pois a pegou em começo de ascendência pela manhã – vinda de queda no dia anterior – que se confirmou pelo dia, fechando bem. Mas a principiante alegria foi, sim, pela lembrança de sua viajem à Paris, seis meses inesquecíveis entre bistroux, musicais, bebidas destiladas, catedrais, cabarés e estradas; pois esse acerto era parte ínfima do desastre, foi somente um “pelo menos isso”.

Com a água corrente lavando seu rosto e a luz da cidade nos olhos, lembrou-se das aéreas e deixou cair os ombros, como se o menino Deus lhe voltasse às constas. Desfez o meio sorriso que a lembrança desapertara. O tempo perdeu a relatividade. O dia seguinte ira ser longo, de reversão de resultado. Dilema: se colocar à venda os lotes de hoje – mineradora, petrolífera e construtora, “a Natura não!”– iria confirmar a perda e isso comprometeria seriamente a médio prazo, pois a recuperação teria de ser ousada, ou seja: arriscada; por outro lado, se deixar capital “imobilizado” nessas, cuja a ascensão é quase certa pelo mercado mas a rentabilidade esperada é baixa em curto-prazo, não aliviaria muito sua reputação ante o chefe, pois nem teria tentado. Seja ortodoxo ou ousado, o que importa é valorizar: é o difere o idiota do gênio. “Isso ai só vem aqui pro café”, lembrou comentário de outro dia. Está numa sinuca.

Acaba de passar o creme hidratante pelos preços e peitoral e, ainda sem roupa vai até a geladeira, tira uma cerveja e um prato de comida coberto de papel-alumínio, que coloca no micro-ondas. “O Leo, ele saberá o que fazer... tantas vezes na faculdade já me salvou, não será agora... Amanhã vai ser foda, tenho que saber o que ele está comprando. Como está se virando”. Abre a cerveja, brinda com o ar e, feito água a uma planta, joga o líquido refrescante para dentro.


...Somos fecundados em provetas
e criados por babás e equipamentos eletrônicos que entretêm e monitoram
A felicidade é vendida em pílulas
e seu efeito dura de seis a dez horas,
mas logo amanhece e a ressaca
trás à areia a alma morta e imbecil
ícara, resumidamente.
...


Senta-se no sofá e toca secretária-eletrônica:
Bip.
Voz feminina: “Qual vai ser hoje? você não vai sair com seus amigos fortinhos – regatinha – bazuca – papai financia e aquelas que só falta usar chapéu de frevo – quando – chove, hoje não, né? Tem aquele Café que hoje só vai gente bonita, está afim? Me liga. Beijo.” Bip.
“Em plena quinta-feira não vou sair com ninguém... mas que pique...” Bebe outro longo gole da garrafa, que está pela metade.
Bip.
Voz feminina: “Voce vem para casa amanhã, meu bem? Eu e seu pai estamos te esperando para o almoço de domingo, mas amanhã a Tia fará um churrasco e quer voce por lá, vai até fazer a salada de rúcula com azeite e queijo ralado, que você tanto gosta. Se não for vir entenderemos, mas – Biiii estridente, o microondas sinaliza o termino do aquecimento – ligue de vez em quando para os seus velhos, não é somente mandar dinheiro. Beijo e que Deus te abençoe.”

Com desalento, pausa o aparelho. Mata a cerveja, deixando a long-neck encima da mesinha, na sala. “Que merda, amanhã já é sábado...”. “Que maravilha, amanhã já é sábado!”. Sai saltitando até a cozinha e pega o prato no microondas, come somente a batata com atum e o frango-xadrez, em pé mesmo, deixando o prato e as sobras sobre a mesa. O meio sorriso, “cara de quem vai aprontar”, dizia sua mãe, continua estampado em seu rosto. Pega outra cerveja e, na vitrola da sala coloca o disco ‘Ten – Pearl Jam’. “Então hoje é sexta, porra!”. Gritinhos.

No quarto, penteando o cabelo, liga: “ E aê gatinha? tudo mais que encima? – risos – ... Não, vamos no Café que você falou primeiro, depois ganhamos o mundo... Está bem então, você vai querer isso também? está avassaladora, ehim? Sexta-feira merece mesmo... Vou querer só a bala... Beleza então, o Café primeiro, depois Modelo GLS 2.0 Turbo – risos – então até”. Entre risos desliga o telefone.

Maqueia-se entre uma cerveja e outra. Perfume. Checa: cigarros, chicletes, carteira, chave de casa e do carro, perfume portátil, agenda telefônica, maquiagem portátil, camisinhas. “Ok.”
Escova os dentes.


...Esse é o mundo em que a governança corporativa
aposentou Deus em uma aquisição hostil
- seu white-knight o traiu
cortou pessoal no Céu,
mas vendeu o Inferno por decisão do CADE
e terceirizou o serviço de São Pedro e o de limpeza.
Depois, abriu capital.


Abre o guarda-roupas: “hhummm... preto é a pedida. O decotado que vai até o joelho ou o tomara-que-caia que mostra as pernas?”.

Retira o vestido. Veste-o sem calcinha, com sandália e mil miçangas metálicas. Quando o vestido sai, o mundo e o seu peso ficam trancados no quarto. Ah, e antes de sair pegou mais duas garrafas.
[...]

Núpcias (ou o homem mais sujo do mundo)

Remoí calado por quase dois anos todos os preparativos que ela fazia para o grande dia. Eu a amava em segredo. Ela acreditava que todos ao seu redor compartilhavam de sua felicidade e, sem dúvida, era luminoso o sorriso que ela trazia no rosto todas as manhãs. Pra mim é que era um martírio saber que não seria eu a fruir daquele corpo e daquela alma.

Fomos assim desfolhando os dias até que chegou o grande momento. Eu não desejava tomar parte naquilo, mas já me resignava em comparecer à igreja, à cerimônia funesta, ao desgosto que se estamparia em meu rosto e que eu teria de lutar para encobrir, para não dar na vista. Veio me socorrer um chamado que tive na véspera para defender uma tese de graduação na faculdade. Há vários meses eu esperava que marcassem a apresentação do trabalho para o corpo docente e, para meu alívio, escolheram justamente aquele dia. Eu poderia me escusar do comparecimento naquele casamento, me poupar daquela palhaçada e ter um motivo plausível para, em nome das boas relações, dar a ela.

Quando lhe comuniquei que não poderia estar presente à cerimônia, ela demonstrou desapontamento. Afinal de contas, éramos amigos, eu era importante para ela. Fingi meu melhor ar compungido, desejei-lhe felicidades com palavras que me pareceram mecânicas à boca e extremamente falsas aos ouvidos e ao coração. O que eu mais queria, abutre, era que aquela união morresse antes de se concretizar. Mas tudo indicava o contrário, que eles seriam felizes. Isso me exasperava, eu não conseguia engolir. Queria algum tipo de desforra, mas não sabia qual.
Naquela sexta-feira do mês de novembro eu saí da faculdade sabendo que, poucas horas depois, ela estaria casada com outro homem, passaria a morar com ele, faria sexo com ele todas as noites, talvez cozinhasse para ele, seria mãe dos seus filhos, contaria a ele seus problemas e medos e ouviria os dele. E deixaria de me telefonar todos os dias, como costumava fazer. Eu deixaria de ser seu confidente, seu amigo, aquele que lhe apresentava sempre as palavras mais doces. Marido nenhum admitiria a minha existência, muito embora tudo de limitasse à cordialidade que um homem oferece a uma mulher que não sabe (ou finge que não sabe) que ele deseja comer-lhe. Aquilo começou a me consumir, mudei minha rota, saí na rua das putas. Já tinha escolhido a forma da minha desforra.

Subi com a profissional para o quarto e fodi-a com grande agressividade de gestos. Estava com raiva, me sentia sacaneado pela vida. Corneado pelo destino. Pelo pangaré que chegou antes de mim à linha de chegada e amarrou primeiro o gado que deveria ser meu. Comi a putana em todas as posições, demoradamente, com esmero, loucamente. Sequer sentia meu corpo, meus movimentos. O físico estava em segundo plano ante a força brutal do psicológico abalado. Lá pelas tantas, a putinha soltou um grito lancinante, devia estar gozando e se eu tivesse olhado em seu rosto, reconheceria uma expressão de surpresa radiosa. Ela não devia gozar sempre no exercício da profissão. Mas eu sequer me envaideci, estava na verdade pouco me fodendo para aquela mulher. Estava ali alocando meu pênis na cona dela, mas na minha cabeça era com outra mulher que eu fodia naquele momento. Ela alhures vestida de branco, e sua pureza iconográfica me despertando toda a lascívia, a luxúria, uma gama de sentimentos que me fazia a pessoa mais suja daquele quartinho imundo de hotel, a pessoa mais suja do mundo. Quando vesti a roupa, a prostituta sorriu para mim, disse-me que se eu não quisesse, não precisava pagar.

Não estava satisfeito. Saí dali e calculei que a cerimônia matrimonial devia estar em seus extertores na igrejinha escolhida por ela para casar, onde toda a sua quatrocentona família havia sempre estado, em matrimônios ou missas de sétimo dia. Para lá rumei, queria dar meus parabéns ao feliz casal, mostrar pra ela meu sorriso sacana. Ela perceberia na minha cara o cansaço e a alegria de quem tinha gozado, e isso lhe causaria mal-estar. Ela se sentiria triste, humilhada, preterida, desanimada. Quiçá até arrependida. Veria que eu triunfei. Que eu sou maior. Sim, eu não poderia faltar ao casamento da minha melhor amiga, que espécie de chapinha eu sou?

Quando dobrei a esquina senti meu coração aos pulos. Havia movimentação no pátio da igreja, pessoas saindo, sujeira pelo chão, flores, arroz, sei lá quais outras porcarias. Aproximei-me de amigos que me perguntaram onde estive. "Onde está a noiva?", argüi. "Se foi", responderam.


"Foi uma belíssima cerimônia", comentavam satisfeitos entre si enquanto eu, desolado, escondia o rosto entre as mãos, já despreocupado em dar bandeira daquele amor inoportuno.
[...]

SOLILÓQUIO I

SERÁ O QUE NOS RESTARÁ
07.03.08

Digo lhe, meu bem, o que há
Há um céu roxo no horizonte
e pássaros que se esquentam da noite fria,
como muitas crianças miseráveis, amontoadas,
ao contrário das ricas, solitárias.

Digo lhe que há motores dando partida
e muitas mulheres vendo uma última partida,
dizendo: “até já”,beijando e engolindo um coração...
mas logo haverá o reencontro.

Digo lhe que há jovens derrubando velhas árvores,
velhos jequitibás que monopolizam a copa da floresta
e com a madeira fazem fogueiras e tocam violão...
Mas ainda estão em suas manhãs, Ápolo marcha
e os velhos costumes que derrubam é o campo em que perderam seus filhos...

Digo lhe que a muitos tomando café da manhã em padarias
e isso em nada se parece com comercial de margarina,
o ato de pedir aos garçons é o mesmo que colocar ficha em máquinas expressa.
Houve um acidente automobilístico. Ambulâncias. “Estragaram carros do ano”, alarmam.

Digo lhe que há peões que temem a guerra.
Há reis que temem a guerra e não demonstram, não.
e há jogadores que marcam o tempo da jogada.

Digo lhe que há um casal que acaba de se conhecer intimamente,
mas sabem das viagens a acampamentos, shows, filhos e infartos do miocárdio..
Mal sabem a felicidade que se contrasta com o azul
mal sabem serem dois pontos traçando a mais bela das retas,
a única beleza muito além da relatividade das coisas.
Mal sabem mal saberem de tudo e se acham onipotentes
pois são apenas dois corações – um com sutil arritmia – na primeira manhã do resto de suas vidas.











NOÉ EM SUA ARCA
21.03

O leve efeito etílico
começa a o deixar mais apaixonado,
mesmo sem ter a personificação
para o seu amor.
O gole lhe refresca a garganta
que os 38 graus Celsius esquentam...

Revive momentos
como que escrevendo um conto:
Traça um desfecho,
apaga,
enche o copo novamente
enquanto imagina outro.
Brinca de Deus
montando seu próprio palco
com personagens que só existem em retratos.

Ao final, deseja
outras ações em dias perdidos,
por que o realizado
agora
lhe parece o mais triste dos finais...

Sempre soube estar designado a isso,
queria, somente, ter vivido mais...
algo mais.
[...]

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